Nem só de mocinhas vive o cinema

Sete de março de 2010. Um dia que vai ficar marcado na história do cinema. Foi a primeira vez que uma mulher ganhou um Oscar de melhor direção. O filme, Guerra ao Terror, de Kathryn Bigelow, que concorreu a nove categorias, venceu em seis, inclusive melhor filme. Muita gente ficou triste. Afinal, Avatar, de James Cameron, era o favorito. Eu gosto de Avatar. É um filme esteticamente perfeito, com uma linda fotografia, uma excelente direção de arte e efeitos visuais de tirar o fôlego. Nada menos do que o esperado de James Cameron, mesmo diretor do maravilhoso Titanic, um dos filmes mais premiados de todos os tempos. Mas a vitória de Kathryn teve um gostinho a mais: ela é ex-esposa de James Cameron. Não importa o motivo da separação. O importante é que eu gostei. E eu tenho certeza que, você mulher, que leu isso, gostou também (rsrsrs). Mas, vamos sair agora dos bastidores e entrar de vez no mundo do cinema. É preciso falar das divas. Das empoderadas. Daquelas mulheres que realmente fazem um filme acontecer: As atrizes.

 Se alguém tem alguma dúvida da importância de uma mulher no mundo do cinema, é só lembrar de Meryl Streep. Não estou citando o nome dela por causa de suas 21 indicações ao Oscar de melhor atriz. Afinal, ela concorreu com outras mulheres tão talentosas quanto. Estou citando Meryl porque, no início de sua carreira, ela nunca precisou apelar para a beleza. Na época, Meryl não correspondia aos padrões estéticos exigidos por Hollywood. Foi preciso apenas do seu talento, sobrepondo assim, o preconceito e a misoginia praticada pelos grandes executivos dos estúdios cinematográficos. Em 1976, quando ela fez o teste para King Kong, o diretor a chamou de “feia” e “inapropriada”, e o papel foi para Jessica Lange. Porém, isso só fez com que Meryl Streep ficasse ainda mais focada em seu trabalho, direcionando assim a sua carreira para grandes papéis, como em O Franco-Atirador, Kramer vs. Kramer e A Escolha de Sofia. Se você ainda não viu nenhum desses, não perca tempo. Esta é uma bela amostra do empoderamento feminino no cinema.

Com a virada do século, houve uma grande mudança na forma como a figura feminina é representada no cinema. Grandes heroínas, mães em busca de vingança e uma imperatriz de elite conduzindo uma máquina de guerra. São essas histórias que precisam ser contadas todos os dias. Não podemos esquecer a magia das princesas, é claro. Mas, hoje, as meninas sabem que, por debaixo de toda seda e todo tule, podemos esconder um collant de lycra justinho e uma máscara lacradora, e sair por aí gritando a plenos pulmões que nós mulheres também podemos salvar o mundo. Por este motivo vou levar até você uma lista com cinco filmes que, para mim, são histórias que mostram este momento que estamos vivendo. Mas no decorrer desta lista, eu sei que outras obras também vão surgir, pois, graças ao feminismo, a mulher expandiu a sua representatividade e cada dia que passa, ocupamos mais espaços que antes só pertenciam aos homens.

A forma que eu encontrei para listar foi a cronológica. É impossível escolher por relevância ou preferência. Cada uma, destas personagens, tem a sua importância, e todas ocupam lugares especiais na minha lista dos meus 100 filmes preferidos. Mas, coincidentemente, o primeiro, é do meu diretor favorito. Quentin Tarantino sabe descrever bem uma heroína de verdade. Kill Bill Vol. 1 e 2 (2003 e 2004), são obras primas que homenageiam filmes antigos de Kung Fu, Western Spaghetti Italiano, Trash e Anime, e que abusam da violência gratuita e excessiva, típicas de sua cinematografia. Uma mulher em busca de vingança, depois de perder a filha em seu ventre em uma tentativa de assassinato. Após um coma de quatro anos, ela acorda e jura matar todas as pessoas envolvidas nesta barbárie. Uma Thurman interpreta Beatrix Kiddo, essa mulher que precisa enfrentar situações extremas até chegar ao mandante do crime, Bill. O melhor deste filme é a sequencia de cenas intitulada “Os 88 loucos”, onde Beatrix mata 88 samurais usando apenas uma espada. Que cena!

Se você gostou desse filme, assista também: Be Cool – O outro nome do Jogo, com Uma Thurman.

 Há quem diz que feministas não amam. Amam sim. Apenas possuem um senso mais crítico que as demais na hora de escolher seus parceiros. Jamais aceitam se casar se não for por amor ou se não for de sua vontade. Prova disso, é que mesmo na virada do século XIX, há quem já se recusava a se casar pelo simples fato de que, naquele tempo, mulheres não poderiam morrer solteiras. Ou pior: mulheres não podiam herdar a herança do pai. Somente os filhos homens. Então para não morrer na miséria, moças que sonhavam com o amor verdadeiro, aceitavam se casar com os escolhidos de seus pais, às vezes sem nem ao menos conhecer. Mas, para Liza, isso era inconcebível. Baseado no romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice) de 2005, conta a história de Elizabeth Bennet, interpretada por Keira Knightley, uma jovem que tem a certeza de que se não for para se casar por amor, prefere morrer solteira. Esse filme é uma daquelas raras histórias de amor, que não apelam para nenhum segundo de sensualidade, mas consegue arrancar suspiros e gerar borboletas no estômago. Detalhe: Não há se quer um beijo na boca. Eu já vi esse filme umas trinta vezes, e todas as vezes tenho a mesma sensação. “Obrigada Jane Austen, por nós mostrar que, nós mulheres, temos direito à escolha no amor.”

Viola Davis é considerada, nos dias de hoje, uma das melhores atrizes de sua geração. Escolher um filme interpretado por ela, não foi fácil. Além de versátil, Viola passa uma verdade que não é possível relatar em palavras. Suas expressões são de alguma forma, impactantes ao extremo, gerando uma empatia quase que instantânea, sendo impossível ser indiferente à interpretação desta mulher. Destes filmes, eu preciso citar um em especial: Histórias Cruzadas (The Help), de 2011, é sem dúvida um primor. Do começo ao fim. E como se não bastasse a dona dos braços mais lindos do show business, temos ainda, no elenco: Octavia Spencer, Emma Stone, Jessica Chastain, Bryce Dallas Howard e Allison Janey. Um verdadeiro elenco cheio de pedras preciosas. O filme conta a história de duas empregadas negras que ajudam uma jornalista a escrever um livro denunciando todo tipo de abuso por parte de suas patroas brancas, em pleno movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, em 1960. O melhor do filme, nem é o livro, acredite se puder. Mas sim, a famosa torta de chocolate, feita por Minny Jackson (Octavia Spencer). Essa sim, tem um sabor todo especial. Vejam o filme e entendam porquê.

Um pouco mais de Viola Davis: As Viúvas e Um Limite entre nós.

Para quem não sabe, Reboot é o termo usado para designar uma nova versão de uma obra de ficção. Até 2015, eu desconhecia algum reboot que fosse melhor que o original. Até que um dia eu me deparo com Mad Max: Estrada da Fúria. Não que eu não goste de Mel Gibson e Tina Turner. Muito pelo contrário. Para mim, são ícones maravilhosos do cinema e da música, respectivamente. Mas, Estrada da Fúria tem algo especial. Algo não. Alguém. Seu nome é Charlize Theron. Que atriz, meus amigos. Que atriz! Esse filme, não é sobre Max Rockatansky (Tom Hardy). É sobre a Imperatriz Furiosa. Uma mulher que faz o seu protagonista perder a cena. Uma heroína, dirigindo sua máquina de guerra, salvando o mundo e a todos. E o filme não se limita somente à ela. Temos também, vários núcleos formados somente por mulheres. Temos “As Noivas”, cinco jovens com ar angelical, que no decorrer do filme se mostram bravas e guerreiras. “As Vuvalines”, um clã formado por mulheres idosas extremamente resilientes, capazes de sobreviver em um ambiente totalmente hostil e violento. Mad Max é uma verdadeira distopia feminista, um lindo massacre do patriarcado.

Assista também, com Charlize Theron: Terra Fria e Monster – Desejo Assassino.

Se existe um tema que está intimamente ligado ao sexismo é o preconceito racial. Junte essas temáticas, e você terá um filme baseado em histórias reais. Infelizmente ou felizmente. Estrelas Além do Tempo, de 2016, conta a história de um trio de matemáticas negras (Taraji P. Henson, Janelle Monáe e Octavia Spencer), que trabalhavam na NASA, durante a Guerra Fria, em 1961. Além de provar o seu valor e sua competência no trabalho, elas precisavam lidar com a segregação racial. Imaginem a situação: você trabalha em um setor, onde só você é negro, porém, ali, só existem banheiros para brancos. Então você precisa caminhar, mais de uma vez por dia, por quase um quilometro, para usar os banheiros destinados a você. Ou pior: você precisa ter a sua própria cafeteira, pois não é permitido que você beba da cafeteira dos outros. Mas a verdadeira mensagem deste filme é que, sem essas mulheres, a NASA demoraria muito mais tempo para lançar um homem ao espaço. Esse é o verdadeiro significado da obra. Se este filme não tivesse sido feito, você dificilmente saberia desta história e da existência dessas mulheres. Elas continuariam como figuras escondidas, como o próprio nome original do filme diz.

Para ver mais de Taraji P. Henson, veja: Acrimônia.

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